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quarta-feira, 26 de março de 2014

O Ensino de Língua Estrangeira

por Márnei Consul


    Então, vamos falar sobre educação?

    Em nossa sociedade, altamente globalizada, o ensino de uma língua estrangeira nas escolas é fundamental. De fato, a comunicação pede que dominemos, no mínimo, duas línguas.

    Aí, vem o questionamento: por que ensinar um outro idioma a quem, provavelmente, nunca sairá do Brasil? A resposta é simples: pelo fato de essas pessoas nunca irem a outro país.

   Aprendendo uma outra língua, estamos a conhecer elementos de uma outra cultura que, quem sabe, nunca iremos ver. Nós, brasileiros, por exemplo, nos deparamos com o ensino do Espanhol e do Inglês. Sabido é que temos muito mais chances de manter contato com o primeiro idioma, haja vista a proximidade dos países. E quanto ao Inglês: teremos oportunidade de conhecer os Estados Unidos, a Inglaterra, etc.? Possivelmente, de forma presencial, não. Mas temos contato com tal idioma através da informática, dos meios de comunicação e do entretenimento (músicas, filmes, etc.), personalidades famosas e por aí vai a lista.

   O nível do ensino de um novo idioma varia de escola para escola. Umas têm mais recursos do que outras. Conseqüentemente, os alunos terão aprendizados diferentes. De qualquer modo, a língua estrangeira deve fazer parte da formação básica dos alunos para que eles estejam preparados para o futuro.

   Os professores devem se esforçar para proporcionar um ensino que se aproxime da realidade dos alunos. Não adianta exigir a gramática correta na prova, esquecendo-se de ter mostrado aspectos culturais do país estrangeiro nas aulas. Isso é tão interessante quando aquilo.

   Por parte dos alunos, estes não devem se contentar somente com o ensino que recebem nos bancos escolares. Com interesse, precisam ir atrás de mais materiais fora de aula e, depois, compartilhar isso com os colegas e tirar dúvidas com o professor.

   Por isso, professor e aluno, não menosprezem o ensino de língua estrangeira! Aproveitem o tempo escolar que é dedicado a isso e busquem conteúdos fora da aula também. A importância não é vista só amanhã, mas já hoje.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Pecado Sobre os Trilhos

Joelson Machado de Oliveira


      Por meados dos anos cinqüenta, ir a Porto Alegre, para as famílias patrulhenses era algo quase comum. Minha mãe, de vez em quando ia, juntamente com as suas irmãs, fazer compras ou consultar na capital.

     Passagem, quase obrigatória, era na Casa Schmidt, loja grande de tecidos, que ficava na Rua Voluntários da Pátria, esquina com a Avenida Cairú. Dali, depois de verem as novidades, rumavam para o centro.

      Em algumas vezes, principalmente nas férias escolares, eu ia junto. Gostava demais daquele passeio. Tudo era diferente e fantasioso para quem vivia no pacato Barro Vermelho.

       O deslocamento da Casa Schmidt para o centro da cidade se dava por bonde. O bonde São João. Embarcávamos no carro amarelado da Carris e íamos apreciando tudo, principalmente eu, que filmava com o olhar todas aquelas novidades.

      O bonde galopava sobre os trilhos Voluntários afora, espirrando pelas ventas, no seu andar irregular: mais rápido, às vezes mais lento, suave ou mais barulhento.

      Comentavam que a Voluntários da Pátria era zona de meretrício, paradouro de mulheres de vida fácil. Imaginem a curiosidade que me despertava, um menino lá pelos seus tenros anos.

      Enquanto o bonde andava ia olhando aquelas mulheres caminhando na calçada, recostadas em prédios antigos, trotando o desejo pelas esquinas, para os homens que encontravam.

     Certa vez uma mulher subiu no bonde. Parou ao meu lado e depois sentou no banco da frente. Corpo desenhado, vestido justo, branco com estampas azuis. Cheguei a ficar nervoso. Não tirei os olhos da mulher até chegarmos ao centro, no fim da linha. Tinha postura e cheiro diferente. Parecia um objeto proibido.

       Voltamos para casa quando já era noite. Custei a dormir com tamanha novidade. Como contaria para meus amigos e colegas que o pecado havia viajado comigo e sentado na minha frente?

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

As Cores da Face

por Marcinha Peixoto


     Depois de ter passado algumas horas "futricando" no site da Bora Colega Shop e da Pink Gloss desesperada pelos pincéis e cosméticos para os cabelos mais comentados nos canais do youtube chegou um momento em que me perguntei: mas no que diabos me tornei?Não vou aqui questionar a mim mesma ou rasgar a minha personalidade a céu aberto na net, a minha questão central é como a industria cosmética conseguiu de forma estratégica fazer com que euzinha desejasse um kit de pincéis de R$290,00! Foi através desses canais que eu tanto gosto de olhar, que os marketeiros acharam a mina de ouro da propaganda. 

     Uma das coisas que mais me impressiona é que aos poucos eu fui sendo contagiada pelo mundo das makes, uma base aqui, um pózinho ali, uma sombra mais escura, e quando eu percebi tava babando no site da Sigma. Foi um processo lento, mas não é que os desgraçados conseguiram o que queriam: fazer eu acreditar que "cara lavada é muito "last season"! Comecei a perceber que houve uma grande mudança na indústria cosmética e no ramo de salões de beleza de uns tempos para cá. Maquiagem virou item de necessidade básica, assim como arroz +feijão , e que as mulheres estão cada vez mais fazendo a unha em casa por que trocam de esmalte ao mesmo tempo que trocam de calcinha (perdoem a vulgaridade).

     A net está cheia de vídeos ensinando de tudo, desde a maquiagem básica, como fazer unha marmorizada até mechas californianas. Não estou aqui criticando os canais, mesmo porque sou uma viciada nos mesmos, estou apenas divagando sobre um assunto que me pertubou por alguns dias. 

    Hoje, procurando uns vídeos específicos, achei um canal de uma menina de 13 anos preparando a pele p ir para a escola. Me respondam se por acaso uma menina de 13 anos precisa de corretivo. Ela manuseia os pincéis e mescla as cores das sombras com uma habilidade que talvez eu no auge dos meus 31 aninhos nunca alcance. Estamos vivendo o boom da cosmetologia e da maquiagem. E eu posso falar com conhecimento de causa que esses vídeos seduzem mesmo e te fazem acreditar que sair na rua de cara lavada é quase que um atentado ao pudor.

    Eu sempre fui vaidosa, vivia nas farmácias desde os meus 13 anos comprando produtos para o cabelo, passando tudo o que me diziam que era bom, até óleo de mocotó. Nunca me expus ao sol para ficar torrada, odeio praia e morro de medo de ter manchas no rosto. Sou tão vítima desse mundo "aquarelado" quanto qualquer mortal, mas confesso que não partiu de mim, eu fui seduzida por um modelo imposto e que cria uma certa prisão para essas pré-adolescentes transformando-as em um modelo a ser seguido. Não julgo, apenas tento entender o porque de eu querer desesperadamente um kit de pincéis de R$290,00!


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"Tipo Crônica"

por Mariana Carvalho


    No fim do dia, eu estava caminhando com o meu pai no Rincão da Palmeira e contando para ele como tinha sido o meu dia no colégio, quando ele disse assim:

- "Tipo", tu já repetiste "tipo" umas quantas vezes só agora.

    Eu, sem perceber, dizia "tipo" naqueilo que contava: "A professora disse que nós vamos ter educação física, tipo só uma vez no mês."

   Daí em diante eu comecei a perceber que não era só eu quem fazia isso e sim quase todos aquees com quem eu convivia, não tenho ideia de onde isso veio, mas se espalhou.
Há um tempo a gurizada, quando  estavam conversando entre eles, sempre no final das frases repetiam "ta ligado?"

    O "tá ligado?" está um pouco em desuso, pois já teve a sua fase. Mas não é só a juventude que tem esses vícios, os mais velhos quando estão falando em discurso, entrevistas ou palestras usam "na verdade", "com certeza" repetidas vezes.

   Tá bom, eu sei que a língua não está parada, estamos sempre usando as mesma palavras só que com significados diferentes, apesar de a língua portuguesa ter 450 mil verbetes, como Renato Russo diz: "Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavra que nunca são ditas?"

  Nós sempre falamos aquilo que ouvimos, mas nós podíamos enriquecer nosso vocabulário lendo, escutando músicas, assistindo filmes, indo ao teatro... 
Tipo, minha professora pediu para fazermos um textinho, mas saiu assim "Tipo Crônica".

Essa crônica faz parte do livro "Só pra Avisar" organizado pela professora Margareth Oliveira com a turma 201 da escola Cândido de Barros em 2013.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Carta ao Ódio Romântico

por Felipe Essy


      É incrível como a primeira impressão que temos das pessoas mais queridas para nós às vezes são as piores. Um “oi” sem vontade, um olhar estabanado, qualquer coisa transforma aquele sujeito imediatamente no seu arqui-inimigo por que foi a vontade do destino, mas um dia acontece o improvável e você descobre que estava diante da sua nova companhia favorita. Assim, com a mesma falta de fundamento que começou, a guerra vira namoro na beira da cerca: esquecem-se os maus entendidos e todas as rixas viram piadas internas, originando as grandes amizades.

     Elas são uma feliz descoberta que parecem não ter nenhuma explicação melhor do que um piparote do destino. Curiosamente nossas relações mais sólidas acabam igualmente de modo inesperado e nos surpreendemos com quem continuou ao nosso lado, o querido rival de outros tempos. Por isso eu dedico esse texto aos meus ex-desafetos, que araram com toda raiva o meu coração e acabaram caindo de amores na cova que fizeram para mim. A você, leitor, todo afetuoso ódio do mundo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quero me Casar em 1955

por Marcinha Peixoto 



      Hoje, olhando uns vídeos desses canais da internet que eu sigo vi um vídeo que me fez refletir sobre o papel da mulher no casamento. Nele a blogueira mostrava os presentes e comprinhas para a nova casa: pratos, panelas, talheres, um avental bem fofo, ao mesmo tempo em que dizia com um certo orgulho que não sabia cozinhar e que provavelmente ela e o marido comeriam somente "porcarias" e coisas de micro-ondas. Foi aí que eu me vi arremessada para a década de 1950!

       Eu sei que o movimento revolucionário feminino conquistou muita coisa através dos anos e hoje a mulher divide com os homens as tarefas domésticas, mas eu continuo acreditando naquele modelo de família das antigas, em que ela organizava e fazia as tarefas da casa e cuidava com muito carinho do marido fazendo comida, passando suas roupas, não deixando lhe faltar nada. É claro que eu acho que o homem deve sim dividir as tarefas como lavar a louça, cozinhar, varrer, manter as coisas organizadas, mas vamos combinar que nós mulheres temos um jeitinho bem mais especial de lidar com os afazeres diários.

       Claro que eu vou sofrer um monte de crítica de feministas que não lavam, não passam, muito menos sabem para que serve um Veja X14. Me irrita profundamente uma mulher que diz com orgulho que não sabe cozinhar, mas como?! Eu me pergunto! Aprendi que casamento é dedicação total, é se doar para o outro, é cuidar com carinho das coisas, do lugarzinho onde o objeto do seu amor mora. Claro que é dividir, mas não tem recompensa melhor do que ver aquele sorriso no rosto de quem é mimado.

      Sim, eu acho que deveria casar em 1950, quando a mulher era rainha do lar, quando se esforçava diariamente para manter tudo em ordem. Aquela mulher que esperava o homem chegar com um jantar gostoso e a casa toda arrumadinha. Eu quero trabalhar, construir um a carreira sólida e sabemos que a carga horária de trabalho (que hoje é igual ou superior a dos homens) não permite essa dedicação total, mas se um dia eu me casar meu marido pode ter certeza que terá minha dedicação total ao lar. Não minhas amigas eu não sou uma besta atrasada que acha que mulher tem que ser submissa. Eu só estou dizendo que eu quero cuidar de quem eu amo. 

       Eu sei que esse é um daqueles textos em que todo mundo torce a cara para minha opinião, mas eu não poderia deixar passar em branco o absurdo que foi assistir ao vídeo e a ideia errada de que a maioria das meninas (sim, meninas entre 20 e 25 anos) tem de um casamento. Imaginam que casar é dividir a mesma cama e que todos os dias serão como uma comédia romântica açucarada de final previsível. Homem nenhum vai querer chegar em casa cansado e encontrar uma casa revirada, geladeira vazia e uma mulher que o manda se virar. Talvez agora eu até me contradiga, ou não. Não sou contra a divisão das tarefas nem estou fazendo apologia à escravidão feminina. Só acho que essas "liberais" não estão cumprindo seu papel. Casar é dividir a vida com outra pessoa e automaticamente ser responsável por ela. Pelo que ela veste, pelo que ela come, pelo que ela vive. Às vezes a gente se pergunta por que os casamentos de antigamente, dos nossos pais e avós, duravam mais e hoje tudo que é sólido se desmancha no ar. Talvez por isso mesmo, pela falta de dedicação da mulher ao lar, pela arrogância que carrega em si querendo que o homem faça aquilo que é dever dela. Tá, não vamos ser como nossas avós que não trabalhavam e ficavam na volta dos filhos e do fogão. Podemos ser um pouco mais exigentes, nos permitiremos pedir que levem o lixo para fora, que recolham a roupa, que ponham a mesa, que sequem a louça, mas também vamos cuidar com carinho e esmero de quem a gente ama. Casamento não é somente diversão, é dedicação.

      Mulheres ainda são educadas na cozinha enquanto os homens brincam com seus carrinhos. Embora muito disso tenha mudado com o passar dos anos, a maioria de nós é ensinada a lavar, passar, cozinhar e fazer todas essas coisas chatas (eu disse que deveríamos fazer, mas em momento algum falei que eram legais e divertidas). Sabemos que faremos os trabalhos domésticos muito melhor do que eles. Como eu disse, eu, quando tiver um marido, terei prazer em me dedicar a ele, assim como em 1950 as mulheres se dedicavam.

     Não sei se esse meu pensamento vem da minha educação, que foi muito boa obrigada, ou se vem da minha adoração pela década de 1950 quando as mulheres eram mais femininas e meigas. Quando ainda não éramos vistas como objeto descartável de puro prazer. Enquanto me questiono sobre a liquidez do mundo moderno e a total falta de noção de quem pensa que casamento é viver feliz para sempre, fico imaginado se estou tão errada assim. Tenho duas amigas, uma posso chamar de cinquentinha, casada, dedicada, trabalha, cuida do marido, saem, se divertem, dividem as tarefas, estão felizes, vão ter um bebê. Outra casou a pouco, já entrou para dentro de casa dizendo que não sabia limpar o banheiro, que não nasceu para as tarefas diárias, que se o marido quer alguma coisa, que faça por conta própria, tem uma vida independente dentro do casamento. Está infeliz, a beira do divórcio. Então eu me pergunto se esses mesmos valores que eu acredito serem importantes não são ainda o que mantém muitos casais completando aniversários de casamento. Talvez eu esteja sendo um pouco radical, talvez não. Não importa o que o mundo pensa sobre o papel da mulher no casamento, importa que, quando eu estiver casada, serei como minha mãe me ensinou, uma perfeita dona de casa.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Nunca Tem Nada

Por Luiz Nicanor


     Minha esposa, filha de Reverendo da Igreja Episcopal, acostumada, nos anos róseos e iniciais de sua vida, a cumprir um ritual mais ou menos ameno, ou seja, frequentar a escola, ir ao culto aos domingos, participar das reuniões dos jovens da igreja e, literalmente, passar todo o fim de semana em casa, exceto nos horários de alguma celebração religiosa, sempre retruca, até os dias atuais, com a mesma frase quando somos convidados para algum tipo de compromisso: Nunca tem nada, quando aparece alguma coisa já tem outra.

     O curioso é que, mesmo já estarmos com o sexto neto, ela continua repetindo esta frase à qual, desde que juntamos os trapos, tem outra redação: Sempre existem vários compromissos esperando por nós, o máximo que podemos fazer é satisfazer alguns à meia boca ou selecionar aquele mais difícil de evitar ou escolher um dos de nosso maior interesse.

      Poderia descrever uma data destes percalços, e não seria exagero se eu afirmasse que isso ocorre quase semanalmente, sempre, mas sempre mesmo, deixando várias coisas como se nada dissesse respeito a nós, muito evento de nosso especial interesse procrastinado, visitas agendadas e não cumpridas, perdas de amigos sem podermos, pelo menos, cumprimentar os parentes, e assim poderia encompridar exageradamente a lista – sem um mínimo de atenção aos fatos.

     Reporto-me a um acontecimento recente, já disse que poderia até maçar o leitor com tanto exemplo. Óbvio eu não tentar difundir a impressão de só comigo ocorrer tais fatos. Sabemos que existem pessoas desesperadas para descobrir alguma coisa para fazer enquanto existem outras desesperadas para descobrir como evitar, sem maiores danos, diminuir a imensa e inevitável lista de compromissos, a maioria evidentemente não cumprida.

     Dia 10 de novembro de 2013, às 20hs, na Igreja Episcopal de Araranguá, foi comemorado o centenário de meu sogro, o Reverendo André Pinheiro de Vargas. O centenário foi em 3 de maio do presente ano, entretanto havia dúvidas sobre o local da homenagem, até a decisão de a mesma ocorrer em Santa Catarina.

   Inclusive, na data, houve o lançamento da obra Materialidade e Religiosidade – Os dois eixos da personalidade humana, de André Vargas da Silva, filho da Dona Eulália, irmã de meu sogro. Tive a honra de receber o livro, escrito com toda a alma e dedicação de quem leva a religiosidade a sério.

    Dia 10 de novembro, óbvio, foi um domingo e segunda-feira, como sempre, é um dos dias mais carregados da semana. Minha esposa e eu tentamos algum modo de comparecer, mas já havíamos agendado, com bastante antecedência, antes de sabermos a data do evento em Santa Catarina, um compromisso no sábado à noite em Porto Alegre e outro no domingo. A solução seria embarcar num ônibus em Porto Alegre mesmo e direto a Araranguá. Porém fomos forçados a passar em Santo Antônio, chegando aqui mais ou menos às 18hs.

     O André e o Marcos, meus cunhados, mesmo com ocupações na segunda-feira, foram e voltaram de madrugada. Outros familiares, duas filhas e minha sogra, ficaram lá e passaram mais ou menos às 11hs em Santo Antônio para uma visita, almoçando conosco e eu os encontrei às 13hs, meu horário de chegar a casa.

     Caso fossemos de ônibus e voltássemos com elas, já teríamos gerado um inevitável efeito bola de neve, e seria quase uma ida sem sentido, pois não tínhamos mais condições de chegar no horário da cerimônia.

    Na realidade, além dos dois filhos homens, (eram três, um falecido), das filhas, que são nove, apenas duas foram, mais a minha sogra, a maioria impossibilitada devido a compromissos na segunda-feira.

    O meu assunto de sábado era o lançamento de duas obras do conhecido poeta Armindo Trevisan, o qual completara 80 anos em 6 de setembro. Ele já havia feito dois lançamentos anteriores comemorativos a esta data e eu e minha esposa, por motivos de agenda cheia, nos comprometemos a comparecer na data do dia 9, sábado, às 20hs. Escolhemos esta data porque já havia um compromisso no domingo, também em Porto Alegre.

      No entanto, quem me conhece sabe, se eu prometo comparecer em algum evento, só com privação dos sentidos eu posso faltar. Mas isso é assunto para outros comentários.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Questão de Tempo

por Marcinha Peixoto


Eu não vi o tempo passar, acredito que eu deva ter parado entre um episódio de alguma série favorita e um livro com personagens cativantes. Eu tive tantos mundos para explorar que não notei o barulho que os ponteiros do mundo real faziam, esse som não fazia parte de mim. Foi ouvindo alguns sussurros do meu passageiro sombrio, que me fizera prestar atenção no relógio, que percebi quanto tempo havia se passado. Um, dois, três, dez anos e tudo parecia igual. As mesmas formas, as mesmas cores, o mesmo dormir e o mesmo acordar, como se eu estivesse inerte a tudo que estava a minha volta nos últimos anos, não vi a vida passar. Vi a conquistas dos outros e até comemorei com eles, vi famílias se formarem, vi profissionais serem promovidos, vi a terra girar mas não senti que com suas rotações o meu tempo era levado, anos esvaziados e eu alienada a uma estrutura imaginativa que eu mesma criara.

Tomei um susto quando percebi quanto tempo me resta, quanto tempo foi perdido enquanto viajava por mundos nunca realmente habitados. Dizem que sempre é tempo para recomeçar, mas quando o barulho do relógio começa a incomodar se percebe que tudo na vida é uma questão de tempo, Gandalf não estava certo quando disse que não importa  quanto tempo temos mas o que fizemos com o tempo que nos é dado. Às vezes quando percebemos que tudo deu errado, quando realmente acordamos para a vida, já é tarde demais, o relógio nunca parou, nós paramos. Por que paramos? Por medo, insegurança, fata de fé em nós mesmos? Medo de mudar ou de tomar um rumo errado? Sempre é mais seguro permanecer onde estamos, mas o mais seguro às vezes tende a nos atrasar, tende a não nos deixar seguir em frente, então ficamos presos no tempo como aquele personagem do filme que revive o mesmo dia sempre que o relógio chega a meia noite. E não é assim comigo? O mesmo dia, acordando e vivendo as mesmas coisas, as mesmas músicas, as mesmas imagens, tudo milimetricamente cronometrado. Me tornei prisioneira do tempo que eu resolvi ignorar, porém ele não me ignorou, é o que diz minhas rugas e minha certidão de nascimento.

Mas estou perdida, o que fazer agora? Como correr atras do tempo perdido? Dos anos vividos como uma princesa que dorme seu sono profundo até que algo mais interessante a desperte para vida? Como corrigir as lacunas deixadas na minha própria história? Em algum momento eu optei por não crescer, por não correr riscos, mas agora o barulho incomodo dos ponteiros me desperta para um futuro que precisa ser escrito pelas minhas próprias decisões e não mais pela própria vida que se encarregou de me trazer até aqui. Sinto medo, me sinto fraca e sem capacidade nem para dar o primeiro passo, perdida em meio aos sonhos que sonhei e aos pesadelos que precisei viver. 

Onde achar coragem para encarar o tempo que me resta? Não é possível viver uma vida cheia de pontos de interrogação, preciso achar minha próprias respostas.  Seria mais fácil se alguém me conduzisse a saída mais próxima, mas foi assim a vida inteira, preciso sair desse labirinto com minhas próprias pernas, usando da minha própria energia. É preciso saber para que lado ir e quanto tempo eu preciso para chegar ao outro lado, não sei se ainda suporto todas as dores e todas os obstáculos de uma nova vida, mas se eu não tentar ficarei presa nesse mundo que eu criei para não precisar crescer e jamais saberei como poderia ter sido se eu realmente tivesse prestado atenção no relógio, hoje para mim tudo é uma questão de tempo!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Vamos Levantar a Taça

por Joelson de Oliveira


    E chegou o ano da Copa. Tantas discussões percorreram o país: verbas, estádios, desperdícios, superfaturamentos, desvios, aplicação dos recursos, outras prioridades, etc.

      Mas agora não tem mais volta. A Copa está aí. Os estádios, a maioria em estágios avançados, outros já prontos, grupos formados, ingressos vendidos.

     Portanto, não é mais hora de discutirmos a validade ou não de sediar a Copa do Mundo. A ordem agora é tentar tirar o maior proveito de tudo que ela representa.

   O nosso país, suas belezas, serão vistas por milhões de telespectadores nos quatro cantos do mundo. Vamos torcer que isso represente para nós um incremento turístico significante, capaz de gerar recursos que possam impulsionar nosso crescimento e sanar nossas carências, que são tantas. 

   Somos o país do futebol e para tanto vamos torcer pela nossa seleção. Ser campeão em casa, para quem é o maior detentor de títulos, é quase que uma obrigação. Todavia, os outros países evoluíram muito, e a nossa seleção precisará da torcida fanática de todos os brasileiros, no campo e fora dele.

     Vamos, também, aproveitar o momento tão propício e levantar outra taça: a da vergonha, da seriedade. Vamos voltar a entender a honestidade como uma mera obrigação de qualquer cidadão descente e não uma virtuose de poucos. Vamos vestir o espírito brasileiro e reprisar os versos do carnavalesco: “ em Mangueira a poesia, num sobe e desce constante, anda descalço ensinando, um jeito novo da gente viver...”: que seja o da vitória e da dignidade.

Feliz 2014 para todos nós.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sem Opção

por Márnei Consul


- Mãe, a Jaque está grávida, e eu sou o pai.

     Foi bem assim que eu dei a notícia à minha mãe. Ela tentou fazer cara de espanto, abrindo a boca e colocando a mão na frente dela. Mas, no fundo, estava louca de felicidade. Antes um pai adolescente do que um filho gay.
    E como dar a notícia ao Rogério? Nem tenho idéia. Como explicar o que ocorreu? Não, ele não vai entender.
     Passei a noite quase toda acordado. Não tinha condições de dormir. Cedo da manhã, procurei Rogério em sua casa.

- Preciso contar algo a você, Rogério. Algo muito importante. Nem sei por onde começar.
- Então, deixe-me falar primeiro. Eu tenho uma bomba para contar e não espero que você entenda... A Jaque esteve aqui ontem e disse que está grávida.
- Sério? O que mais ela disse?
- Aí é que está. Ela disse que o pai sou eu.
- Como assim, Rogério? Não era eu?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Agulha

por Joelson Oliveira


       O vento balançava os eucaliptos no lado de cima do açude, já perto das mangueiras. O gado arrepiado berrava no correr da cerca.

     Fazia um tempo que havia morrido Chico Maranhão, homem trabalhador que morava no beco dos Cardoso, próximo do Passinho. Carreteava para Porto Alegre, levando rapaduras e outras coisas.

      Ficara a esposa “Mariazinha Maranhôa”, com era conhecida, juntamente com as três filhas que pegara para criar.

      Trabalhava com o S. Tolentino das Neves um chamado Catarina, de nome João, nos serviços da roça e do gado.

       Certa feita, o Catarina começou a visitar a Mariazinha Maranhôa. Ela era bem mais velha do que João, o pretendente. S. Tolentino um dia falou para o empregado: - Oh João. Só pode ser por interesse que tu estás passeando lá na Mariazinha. – Não é nada S. Tolentino, eu gosto dela.

    Diante daquela declaração, S. Tolentino ajudou o empregado a casar e, dentro em pouco, Catarina estava morando na casa da pretendida.

     As filhas de Mariazinha cresceram e foram casando. Uma delas casou com um filho da Nicota Rocha, as outras já estavam se ajeitando.

    Um tempo depois, João Catarina foi na cidade e lá comprou uma agulha, que dizia que era para matar porco.

    Logo em seguida foram matar uma leitoa na casa do S. Tolentino. João puxou da agulha e pediu para sacrificar a bichinha. Mirou no coração da leitoa e enfiou a agulha. Foi só um suspiro e pronto.

     Mariazinha Maranhôa, que já andava meio desconfiada, botou as barbas de molho, ou melhor, o bigode, pois a vivente era bigoduda e bem mais velha que o companheiro Catarina.

    Certa noite, João com desculpa de fazer carinho na Mariazinha, começou a alisar o peito da mulher. Quando levantou o seio e ameaçou enfiar a agulha, Maranhôa botou a boca no mundo: - Socorro, socorro!

      Na calada da noite, João agarrou Mariazinha pelo pescoço e começou a apertar. Enquanto teve forças a mulher gritou. Mariquinha, uma das filhas de criação, que ainda morava junto, levantou em socorro da mãe. A porta do quarto estava fechada por dentro. Como era uma porta de madeira, simples, Mariquinha tomou distância e se jogou de ombro, abrindo-a. Agarrou-se nas goelas do malfeitor e conseguiu livrar Mariazinha Maranhôa, que já estava quase se passando. 

     Não conseguindo o intento, João se mandou correndo noite afora. Nunca mais se ouviu falar no Catarina.

       Mariazinha Maranhôa ficou com o pescoço numa rouxidão só, por muito tempo.

     A agulha, naquela confusão, caiu no assoalho cheio de frestas. Dias depois, Nazário Pólo – que era vizinho e carpinteiro – achou-a embaixo da casa.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Convívio Social

por Maurício Collar


     Conviver dia a dia com angústia e medo é perturbador. São as chamadas fobias, em que os pensamentos negativos invadem a mente, deixando um rastro de insegurança por onde passamos.

     Desde criança fomos criados a sentir medo. Já fui assustado por bicho papão, com o atravessar a rua, de chupar bala que nos oferecem, dar papo a estranhos, de não encontrarmos um amor e ficarmos solteirões para o resto da vida, de não ir a velório, pois ficaremos impressionados. Por ai segue os amedrontamentos até ficarmos adultos. Então começamos a colher os frutos podres dessas experiências vividas.

     Conheço uma pessoa que só consegue viver bem em sociedade no município onde mora. Quando se afasta da família, dos amigos, viaja para longe, tem medo de passar mal e na maioria das vezes volta imediatamente para casa. E só descobriu seu real problema depois de parar no hospital com o coração acelerado. Muito cansaço pelo corpo e, ao segurar a mão da médica plantonista, pedia que não a deixasse morrer, pois ainda havia muitas coisas a fazer nesta vida, inclusive escrever essa crônica a qual você, amigo leitor, tem em mãos. Não foi fácil descobrir o real motivo de tudo isso ter acontecido do nada. Só depois de muita análise com psicóloga e medicações receitadas pelo psiquiatra que hoje tenta levar a vida normalmente.

      Para não viver refém das limitações, é preciso dar o primeiro passo rumo à liberdade. Desatar os nós do inconsciente e ver o real motivo que leva as pessoas a terem esse tipo de comportamento. Isso passa, muitas vezes, por tratamentos longos, tais como já disse: terapia para encararmos os problemas de frente, antidepressivos e exercícios físicos, tudo isso para elevarmos os níveis de seretonina em nosso organismo.

     Buscar qualidade de vida é o mais importante. Tenha a mente equilibrada, conviva bem com a família, procure não gastar mais do que ganha, valorize o seu emprego. Alimente o corpo com prudência, o espírito com amor e não tenha vícios.

      Espante para sempre os fantasmas do medo. Nunca deixe uma síndrome o dominar. Dê uma lição nela e mostre sua força. Mas para isso procure ajuda a partir do momento que detectar o problema, assim encontrará a mesma felicidade que hoje busco.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ben(ditos) Livros

por Brenda Fernández


      Vou ter que admitir, novembro é um mês especial. Não só pelo início de dias mais quentes, e pelas férias estarem se aproximando... É pela sensação de abrir mundos e perder o olhar em meio a tantos títulos que o convidam para se aproximar. Andar pela 59ª Feira do Livro de Porto Alegre me traz sensações novas, olhares atentos a todas as bancas e uma ansiedade em folhear um livro já é fora do comum. É o momento em que tudo parece novidade e o meu olhar é desviado com facilidade para todos os cantos da Praça da Alfândega. Espicho o olhar para ver aquele livro dependurado lá em cima, por segundos, ouço um cortejo de artistas se aproximando, saiu correndo e decido que ficarei parada por alguns minutos rindo de suas caretas pitorescas. E assim podia ser todos os dias do mês, essa estranha euforia de ir ao encontro de cheiro de folhas novas e pipoca doce, que juntos fariam a minha felicidade rotineira. Por fim, saiu Andradas afora com minha sacola pesada cheia de livros e saudade.

      Mas o que me consola é que mais uma Feira do Livro está se aproximando. Desta vez, a III Feira do Livro de Santo Antônio da Patrulha que vem aí cheia de novidades. Além de boas leituras, oficinas, apresentações artísticas e musicais, exposições e o mais importante, mesa de autógrafos com os nossos escritores patrulhenses. Mais um tanto de informações para minha bagagem cultura e um peso extra para minha sacola plástica de alças reforçadas.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Que Presente!

Texto de Joelson Oliveira

       Há cerca de dois ou três meses, tive a oportunidade de apreciar uma idéia e realização brilhante. Foi do meu amigo Quico Selistre, grande cara.

       Ele organizou e produziu – em número limitado – um CD como lembrança dos “EREMITAS”, que se constitui numa homenagem a todos nós, jovens dos anos sessenta, e que tivemos a satisfação de curtirmos aquela nossa banda, que embalou muitos dos nossos sonhos, nossos namoros, nossas doces tardes de domingos, em muitas reuniões dançantes, principalmente na boate do Centro Clube.

        O CD relembra as músicas que os Eremitas interpretavam. Recordei com muita alegria, pois tive o privilégio de acompanhar muitas coisas, no pequeno tempo de duração da banda, com uma série de acontecimentos ao seu redor.

      Desde a Kombi do Nadir, que nos levava para Porto Alegre, a Pensão do S. Naziazeno Santana, na Rua Senhor dos Passos, no apartamento do Edifício Ariosto Pinto, na Rua General Vitorino.

      Na pensão da Rua Senhor dos Passos, onde eu também morava, o Bilocão e o Sebastião Castilhos, arquitetaram a boate “Manifesto”, do Centro Clube, com a redução do espaço do salão, que era muito grande para uma boate, a luz negra e a decoração em preto e branco, com os painéis bolados pelo Sebastião, onde aparecia o Einstein mostrando a língua, a cara marota do Carlitos, a boina do Che Guevara e tantos outros.

      No Apartamento da Rua General Vitorino, em cima da firma onde eu trabalhava, muitas rodadas com alguns dos componentes dos Eremitas, imitando um programa que existia na televisão à época, em que alguém recebia um tema, não podia dizer nada, apenas com a mímica tinha que fazer o companheiro acertar o tema. A cada acerto, somavam-se pontos.

     Naquele apartamento aconteciam muitos ensaios de alguns dos integrantes da banda, que residiam em Porto Alegre. Ouvíamos durante a semana e, no domingo, dançávamos aos seus embalos.

     Era uma banda simpática e de muito bom gosto. Foi ela de uma importância singular na formação de uma geração de jovens patrulhenses. Além de toda a contribuição cultural que ela nos proporcionou, pois música é cultura, a banda foi um elo magnífico para quem saiu da era dos boleros (Clube Comercial Antigo), para a jovem guarda e a era dos Beatles (boate do Centro Clube).

     É importante que seus componentes tenham a consciência que embalaram, ensinaram e transportaram uma grande leva de jovens da nossa terra, entre época musicais diferentes, e fizeram com muito carisma e bom gosto.

     Os Eremitas marcaram muito nossas formações e este CD que o Quico relembrou foi um grande achado, para não dizer um grande presente, pois eu tive a honra de ganhar. Na cerimônia do meu casamento, eu e a minha esposa fomos presenteados pelos Eremitas, nossos amigos, que nos brindaram com canções maravilhosas, como: “Ao mestre com carinho”, linda música do filme de mesmo título, que eu muito gostava, além de tantas outras.

      Que presente! Não foi daqueles de pendurar na parede, nem colocar em cima do balão ou na sala de jantar. Nunca quebrou, nem estragou. Agora, no próximo dia 20 de dezembro, fará 35 anos que está guardado, com muito carinho, nos nossos corações e, com certeza, ali ficará para sempre.

Valeu Gurizada!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Acima do Sótão

     Eu sempre vi as coisas de um modo diferente. No início eu falava do que eu enxergava naturalmente, mas ninguém entendia ou acabava sobrando para mim. Depois de um tempo passei a guardar a visão dessa camada do mundo só para mim e me escondi naquele sótão daquela casa antiga que ninguém notava entre as árvores. 

      Eu costumava pensar que a vida é um jogo de xadrez, para ganhar você tem que olhar o tabuleiro de cima, por que só descobrindo o próximo movimento dos adversários você vai fazer a melhor jogada. Não, o mundo não está cheio de inimigos a serem derrotados, mas quando você percebe onde os passos das pessoas próximas a vocês estão levando elas você definitivamente não quer ir para lá. De repente você percebe que não está mais conectado ao mundo e não resta muito a fazer do que sentar e ficar olhando o espetáculo com aquela sensação de que perdeu o ônibus. 

      Nesse momento, começa a bater aquela tristeza sem motivo e você começa a odiar todas as coisas que te fazem ser diferente, que te afastaram com o tempo dos amigos mesmo vendo eles toda semana. Assim eu aprendi que a maior qualidade de alguém é ao mesmo tempo seu pior defeito. Muito divertido? Abestalhado. Corajoso? Inconsequente. Cuidadoso? Medroso e assim vai. Uma qualidade sempre tem duas pontas e as minhas estavam começando a me espetar. Foi quando eu tive um encontro inesperado. 

      Alguém com quem eu apenas troquei “oi” vazios quase todos os dias de repente apareceu com um assunto que nós dois usamos de pretexto. Muitas prateleiras observadas e paginas viradas na livraria em que estávamos eu percebi assustado onde tínhamos ido parar: naquela dimensão que eu nunca havia dividido com outra pessoa. Depois de tanto tempo sem ver ninguém naquela camada do mundo eu já acreditava que aquele lugar era deserto e quando me dou conta, estou conversando com aquela mulher. Foi inevitável falar da minha tristeza de viver naquele lugar sozinho tanto tempo por que minha forma não se encaixava no mundo lá fora e surpreendentemente ela me diz que é justamente essa forma estranha que ela gosta em mim. 

       Logo fará um ano que estamos juntos e ao mesmo tempo que parece pouco tempo, também é muito pouco para tudo que aconteceu. Hoje eu não vejo aquele lugar acima das outras casas como meu quarto escuro no sótão, mas como o nosso cantinho, nosso mundo que decoramos como queremos e de onde teimamos em sair. Talvez nunca saiamos, talvez alguém vá embora e esqueça a porta aberta, mas a verdade é que eu sempre vou ficar espiando pela fechadura esperando que ela volte para acender a luz.


F. Essy

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Na Praia




        Essas palavras do nosso colega Márnei Consul estão no livro Graças às Desgraças que você pode baixar no link abaixo ou adquirir na livraria La Mancha. Outros textos bacanas dos mais diversos assuntos podem ser conferidos no seu blog Escritor Márnei Consul. Um abraço!

F. Essy

Graças às Desgraças para download:

http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/2697229.pdf?1293719116


quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Medalha de Lata


          Eu morava numa pequena cidade que todos os anos realizava uma corrida de carros pelas estradas de chão batido no interior. Quarenta anos atrás quando isso começou foi apenas uma brincadeira entre amigos, mas hoje em dia era um verdadeiro evento. Apesar disso os competidores ainda usavam carros comuns, mas o meu estava longe de ser como os outros. O amarelo horrível daquela caminhonete velha desbotava sob o sol enquanto eu me agarrava no volante para não abrir a porta e fugir dali. “Por que eu tinha entrado naquela furada do tio Claudio? Por que ele não veio correr naquela carroça cor de areia?” Não importava mais, o sinal soou e os carros começaram a derrapar pelo saibro engolindo uns aos outros. 

          O tio Claudio foi um dos primeiros a participar da corrida e desde então havia participado em todos os anos, mas conforme seus parceiros foram envelhecendo, adoecendo ou se acomodando a corrida passou a ser formada por rostos novos - e carros novos. Há cinco anos eu insistia para que o tio parasse de competir, mas ele se recusava, pois ainda se divertia – mesmo perdendo, no entanto esse ano ele soube de que havia virado piada na competição, como se fosse um velho caquético fazendo palhaçadas para entreter o publico. Ele ficou quieto durante dias até que chegou para mim e disse “Eu não vou mais correr na competição, mas você vai ter que ir no meu lugar esse ano.” 

          Minha primeira reação foi abrir a boca para soltar um deboche, mas no breve instante entre o que ele disse e o que saiu da minha boca eu pude perceber a seriedade daquele rosto amargurado de tristeza e não tive coragem de botar para fora nada do que eu tinha pensado, me limitando a uma bufada. “Mas como eu vou fazer isso?” Eu disse, finalmente. “Dirigindo.” Ele respondeu. “Em algo que dê para fazer isso”. Completei, mas eu nunca fui do tipo que batia pé muito tempo e quando vi já estava na caminhonete. 

“ - Eu não tenho como ganhar com esse carro. Isso é uma joça!” 
“ – Sim, realmente está péssimo.” Disse o tio com tanta sinceridade que quase foi engraçado.  
“ – Então de quê adianta eu correr se vou perder? Você quer me ver perder?” Eu disse em desespero.  
“ – Preste atenção. Você com certeza vai perder por causa do carro, mas não seria com isso em mente que você desistiria se pudesse, mas sim por achar que você não poderia ganhar e essa seria a sua desculpa para justificar todas suas covardias independente do carro que você tivesse.” 

         E foi nisso que eu pensei ouvindo as palmas quando cheguei por último na linha de chegada empurrando o carro. Oque teria sido uma humilhação, foi a glória de saber perder.


F. Essy

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Clone ou Silicone?

              Buenas, pessoal. A nossa Feira do Livro está chegando e trago um conto do Luiz Nicanor, nosso patrono desse ano. Encham uma xícara de café e aproveitem. Um abraço!

F. Essy


C L O N E S 


               Pois assim como os computadores se tornaram utilidades domésticas, daqui a um simples passo, outro bem de consumo logo também se tornará, mas talvez, como sempre, só uma pequena minoria bem aquinhoada terá ao alcance de suas mãos ávidas e nunca satisfeitas, será o clone. 

               Digamos você ser um destes privilegiados, daqueles que têm o poder na mão e a varinha mágica de realizar todos os seus desejos, independente de todo o caudal de problemas sociais a ocorrerem a sua volta. Você, obviamente, sabe usar com perícia as mordaças da consciência de tal modo que sempre terá um sono tranquilo, um despertar róseo e um dia maravilhoso, imune a gritos e a ranger de dentes. Qual culpa cabe a você onde uma multidão de lascados não sabe distinguir uma alface de um repolho? Problema dela, é óbvio... 

               Mas você é um dos privilegiados com o poder de encomendar um clone. Aí você começa, pelo menos no princípio, quando ainda não está bem familiarizado com a nova situação, a matutar nas vantagens que lhe serão trazidas por possuir em seu poder e a seu mando uma cópia exata de si mesmo. 

               O primeiro problema a lhe saltar aos olhos é o de como manter uma cópia igual a você perambulando por aí. 

               Este galho até não é dos piores, você é rico, apenas empresta um dos seus inúmeros apartamentos ao clone e ensina a ele como usar disfarces: óculos escuros e barba postiça, por exemplo. Isto se você não usa barba e óculos escuros! Neste caso obrigue o clone a andar sempre bem barbeado! Se você exibe uma respeitável careca reluzente, o clone poderá usar uma peruca a Beatles. 

               Surgirão, óbvio, outros entraves, como a carteira de identidade do clone, o título de eleitor (e já lhe passa pela cabeça uma possível complicação na hora de votar: e se lhe acusarem de haver votado duas vezes no mesmo candidato, ou, o que é pior ainda, ter votado duas vezes, mas em candidatos diferentes?), carteira de trabalho... O melhor mesmo é tirar cópias de seus próprios documentos e explicar bem ao clone em como usá-los, ou, melhor ainda, como não usá-los... 

               Mas não só de problemas viverá você nesta nova situação... Você começa também a matutar nas vantagens de possuir uma cópia! 

               Um dia você levanta de saco cheio porque terá que aturar reuniões maçantes e papos furados... Tá tudo resolvido! Mande o clone. Afinal de contas, qual a serventia dele? 

               No outro dia você levantou de porre, com a sensação de haver engolido um cabo de guarda-chuva preto; muito bem, mande o clone... Teria substituto melhor? 

               Você está assoberbado de compromissos, tem que estar em vários locais ao mesmo tempo, são situações de lucros e outras vantagens... divida os pepinos com o clone. Claro, você será justo o suficiente para ficar com os pepinos menores e deixar todos os grandes, grossos e rugosos ao clone! Afinal de contas você é justo até com sua cópia... 

               E aí um dia chove na sua horta! Você, nesta correria toda atrás do vil metal, já nem sabe a quantas anda a sua vida de marido sofrível com esposa chata, e de repente lhe passa bem debaixo das fuças uma daquelas gatonas cujas protuberâncias de seios e de nádegas ondulam voluptuosamente ao compasso de molejos e suspensões capazes de alterar até a posição anatômica de seus olhos já esquecidos da existência do belo sexo. Gingando por controle remoto no mesmo compasso daquela Vênus fugida do Olimpo, você a segue e passa-lhe a sua irresistível lábia. E... mas como você é mesmo um galã de Holliwood!, a deusa topa qualquer parada! Também não é todo o dia que um garanhão dos quatro costados como você se dignar a baixar os olhos a alguma pobre moça! 

               Mas aí a olimpiana lhe confessa estar perdidamente apaixonada pela sua flácida barrigona cheia de chope e por sua beleza já um pouco enferrujada, mas que existe um pequeno senão! O namorado dela é um lutador de artes marciais e muito ciumento. Você sente um aperto no ânus capaz de cortar um alfinete ao meio, mas tem o poder do raciocínio rápido. Rebate presto ser casado com uma mocreia também ciumenta e louca de aparecer na mídia e nos jornais como uma degoladora de pênis, e passa o dia inteiro com uma faca de cozinha na mão a treinar cortando cenouras e pepinos. 

               Mas tudo isso é café pequeno e você pensa logo no clone e na maneira de se sair bem da empreitada. Perder uma gata daquelas seria o mesmo que derrubar todas as outras façanhas de sua vida e dali adiante viver com a sensação de um derrotado. Se você não ganhar esta, com qual irá empatar no futuro? 

               E tudo dá certo e você está em franco caso com a olimpiana, no maior dos segredos, até um dia onde você está calmamente sentado em um restaurante fino esperando o seu almoço e um brutamontes lhe gruda pelo colarinho e urra na sua cara: 

               - O meu detetive particular descobriu que a minha noiva está me traindo com você, seu aprendiz de pilantra! Vou agora mesmo torcer o seu miserável pescoço. 

               É um terrível vexame você ser arrancado assim de sua cadeira por um molosso daqueles e chamar a atenção de todo mundo, até dos garçons que já correram ao telefone para chamar a polícia. Mas você não perde a fleugma: 

               - Desculpe, cavalheiro, mas deve haver algum engano. Não me recordo de ter sido apresentado ao senhor e o motivo destas liberdades comigo... 

               - Deixe de conversa mole, seu patife! O meu detetive... 

               - Detetive? Nem imagino do que o senhor está falando! 

               - Ontem foi minha noite de luta, até de madrugada, – diz o Sansão –, e você passou a noite na cama, no bem bom, com a minha noiva! 

               - Em primeiro lugar devo lhe dizer que vou lhe processar pelo vexame causado pelo senhor contra a minha reputação. Sou um homem de respeito e posso provar. Sempre saio do serviço e vou direto para casa. Minha esposa, dona Marfisa, é muito ciumenta e não admite atraso nem na hora do jantar. Por que não liga para ela? 

               Ele tem um sorriso cínico e cruel e aceita o seu celular junto com o número do telefone fixo de sua casa. Percebe o quanto sua esposa deve ter ficado indignada pelo atrevimento do desconhecido, diante da maneira constrangida que ele lhe entrega o celular depois da ligação: 

               - Desculpe – diz o brutamontes –, mas não entendo mais nada. Sua esposa primeiro ameaçou desligar se eu não dissesse o meu nome e depois ameaçou me processar por calúnia tão baixa! Disse que ontem o senhor esteve com ela à noite inteira e que o senhor nunca foi tão bom marido como naquela noite. Há muito tempo o senhor não servia para nada, era um borra-botas, e, de um tempo para cá, tem se mostrado um verdadeiro Casanova! 

               Morrendo de ciúmes do clone (você havia combinado para o clone apenas ficar em casa fingindo ser você, ele não deveria se preocupar, pois há muito tempo não faziam mais sexo), você então suspende o almoço e pede desculpas aos policiais que não demoraram a chegar, dizendo tudo não passar de um simples mal-entendido. 

               Vai tomar satisfações com o clone e ele lhe apresenta um documento do Sindicato dos Clones declarando já haver ingressado na justiça com uma ação de usucapião, de direitos adquiridos, do raio que o parta e do escambau, e, assim que o juiz decretasse a sentença, Você, criatura do céu!, passaria a viver o papel de clone.


Luiz Nicanor

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Película

C I N E L U Z

Saudade do cinema do seu Valmor

Lembro como se fosse hoje,
Filmes românticos e também de humor.

Mazzaropi, Grande Otelo e Oscarito

Teatro de rebolados com lindas mulheres,
Tudo era tão bonito.

Trocávamos gibis

E comíamos cocadas e pipocas,
Víamos prédios lindos na cidade
E também favelas e malocas.

A tristeza foi muito grande

O fogo atingiu a vila e as Pitangueiras,
Fazendo do nosso saudoso Cine Luz
Uma triste e enorme fogueira.

Queimou junto nossa alegria

Que acabou ficando para atrás,
Somente as namoradas
Pipocas e cocadas,
Não esqueço jamais.

Diolar 



 Esse poema do nosso colega Diolar sobre o antigo cinema que funcionou em Santo Antônio durante a década de cinquenta reflete como o mundo dentro da tela vem se mesclando a memória de nossas vidas, sentimento esse compartilhado por um número cada vez maior de pessoas que passaram a consumir mais cultura e entretenimento. Isso pode ser percebido pelas sequências de filmes consagrados que antes demoravam quase uma década para serem produzidos e que hoje são realizadas em pouquíssimo tempo atendendo ao desejo ávido do público presente tanto no consumo de grandes produções americanas quanto em iniciativas independentes, mas essa grande arte mundial se mantém viva não somente pelo mercado, mas também pelo desejo atemporal que move o ser humano na construção e consumo do mundo que ele criou, como salienta Nicanor Vargas:

                Certamente o desejo mais inato do homem é perpetuar suas ações e acontecimentos, principalmente de um modo dinâmico.
                A preocupação é antiga, como podemos ver nos vestígios pré-históricos, os desenhos rupestres, com cenas variadas e progressivas de uma ocorrência, principalmente a caça.
                Quando surgiu o cinematógrafo, muitos episódios de espanto ocorreram, atribuídos até a algo milagroso.
                Na época do cinema mudo e, depois, o falado, não era incomum, nos interiores, alguns elementos da plateia se revoltarem e tentar intervir no que mostrava a tela.
                A tecnologia está sempre avançando, já se cogita até no cinema virtual ou o holográfico, projetado no espaço, de uso domiciliar.
                Além do entretenimento, serve para perenizar e reproduzir a vida, o que todos temos em mente, lutando contra a finitude da mesma.

Para concluir a postagem, deixo vocês com um texto do nosso estimado Joelson Oliveira. Um abraço!


CINEMA

                Olhos brilhantes vislumbraram a tela enorme sobre o palco. A cena chocante mostrava a criança chorando na sarjeta enlameada, pés descalços, ar de abandono. Os soluços se multiplicavam pela sala. Não havia outro barulho, além de pequenas tosses espalhadas pelas fileiras.

                Um estrondo se rompeu pelos cantos. Um caminhão de fuzileiros passou voando pela rua. Ouviu-se tiros ao redor, poeira e gritos desesperados. O povo humilde estava massacrado. O inferno havia retornado.

                As rádios, as poucas que ainda estavam no ar, davam sinais de alerta e toques de recolher. A paz já não existia mais. A população não tinha mais forças para resistir. O massacre era inevitável.

                Não havia lugar para a fuga, pois todos os cantos da cidade estavam ocupados pelas forças militares invasoras.

                As mães choravam os filhos e a fome. A dor já não tinha mais tamanho. Junto ao muro caído de uma casa vi uma flor balançando na brisa empoeirada da guerra. Era vida entre os escombros, nem tudo estava perdido. Nisso desperta o rádio-relógio da minha cabeceira: assustado, descobri que estava na hora da minha caminhada.

Joelson Machado de Oliveira 


P.S. - Problemas de formatação por limitação temporária das máquinas.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Mulher Invisível

            Marcos entrou no elevador de um Shopping em Porto Alegre e sentiu um perfume que o deixou completamente inebriado. Começava ali o mistério, a procura da mulher invisível.

            Quando Marcos desceu no terceiro andar, na área de roupas masculina e feminina, decidiu comprar calça, camisa, sutiã e calcinha. O perfume tomou conta daquele ambiente; ficou com vergonha de perguntar para o vendedor se era ele quem o estava usando, uma vez que era adocicado, não combinava com aquele homem. Saiu daquele local, entrou no elevador e decidiu ir até o quarto andar, para ver, na perfumaria, se descobria quem havia comprado aquele intrigante perfume. A vendedora, muito bonita, tinha olhos verdes bem pintados, perguntou se Marcos gostaria de comprar algo. Ele ficou por um instante pensativo, parecia estar sonhando, e imaginou: será que é esta moça bonita que está usando esse perfume maravilhoso. Novamente a vendedora chamou sua atenção e perguntou-lhe se gostaria de comprar alguma coisa. Marcos acordou do transe momentâneo e disse-lhe que procurava uma colônia masculina. Ela indicou um lançamento, era perfume Francês, e ele nem sentiu a fragrância, comprou sem experimentar, como era de seu costume.

            O dia estava maravilhoso, o sol brilhava, era uma tarde de verão daquelas, fazia mais de trinta graus. Marcos, ao sair do Shopping, passou na sorveteria e tomou refrigerante misturado com sorvete. Por um momento aquele perfume indescritível lhe veio ao nariz; deixou tudo em cima da mesa e saiu rapidamente dali. Pensou que estava ficando louco, foi direto ao paradão de ônibus. Esperou quinze minutos, e nada de passar a linha Auxiliadora. Resolveu pegar um táxi, esticou a mão para o primeiro que passou na sua frente. Quando estava dentro, no banco traseiro, veio aquele perfume no ar, teve a certeza de que só podia ser de mulher. Pegou o taxista no ombro e sacudiu-o: por favor me diga quem esteve dentro deste carro antes de mim. O motorista ficou todo arrepiado com aquela mão gelada e inesperada, ele era apenas um garotão e tinha pouca experiência dirigindo táxis. Falou para o passageiro que tinha sido a mulher mais linda que ele já havia transportado. Marcos ficou mais curioso ainda e pediu que o levasse até aquela mulher, pois estava o dia todo sentindo o perfume dela. Tudo bem, o motorista concordou e foi levá-lo até aquela mulher misteriosa.

            Ao chegar perto da casa, logo quando o taxista entrou na rua dela, Marcos ficou espantado com o que estava acontecendo, pois ali era justamente a rua onde ele morava. Perguntou para o motorista se não estava havendo algum engano: será que não tinha entrado na rua errada? De pronto ele disse que não; não tinha como esquecer aquele trajeto, a casa onde morava sua musa. Para piorar ainda mais a situação, o motorista do táxi parou seu carro bem em frente à casa de Marcos e ainda brincou: aqui é que mora o meu amor! Marcos, indignado, pagou o taxista e desceu, todo cismado. Quando entrou no portão, sentiu o melhor perfume que sentira em toda sua vida. Entrou em casa pé por pé, foi até a cozinha, não tinha ninguém; no banheiro também não havia; resolveu ir ao quarto: lá estava o frasco vazio de perfume bem em cima do criado mudo e com ele um bilhete inesperado.

            Hoje quem está feliz é o taxista, pois aquele perfume não sai mais de dentro do seu carro, até lingerie ele estreou naquela noite junto com seu amor.

Maurício Collar